Engenheiro que fez viaduto diz não lembrar detalhes de projeto perdido

Um dos engenheiros responsáveis pela execução da obra do viaduto que cedeu na marginal Pinheiros, Roberto de Abreu Camargo, 70, diz não lembrar detalhes do projeto concluído em 1978, nem saber o motivo da ruptura.
A gestão Bruno Covas (PSDB) não encontra o projeto original do viaduto, mas localizou o engenheiro nesta terça-feira (20) e mandou buscá-lo em Guarujá, no litoral sul do estado, onde ele passava o feriado com a família.

Camargo acompanhou, na tarde desta terça, uma vistoria de técnicos contratados pela Prefeitura de São Paulo para as obras de recuperação da pista que rompeu na madrugada do dia 15 de novembro, no início do feriado prolongado da Proclamação da República. A ruptura provocou o fechamento da pista expressa da marginal e uma série de alterações no trânsito.
Segundo a prefeitura, a colaboração de Camargo trará informações novas sobre a estrutura, já que ele a "conhece muito bem". O engenheiro, no entanto, diz não saber detalhes do projeto. "Quarenta anos atrás, acha que vou lembrar? Eu disse o que eu lembrava da época que foi executado, como eram os aparelhos de apoio. Mais ou menos eu disse", afirmou à Folha de S.Paulo.
De acordo com ele, a caça pelo documento original continua. A prefeitura agora aposta no acervo da CPOS (Companhia Paulista de Obras e Serviços), depositária desses papéis, e do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), que fiscalizou as obras.
A estrutura foi projetada na década de 1970 por Walter de Almeida Braga (1930-2016) e executada por meio de um convênio com a Fepasa (empresa que administrava as ferrovias do estado), para a qual Camargo trabalhava.
Segundo o secretário municipal de Obras, Vitor Aly, o documento pode ter se perdido em um incêndio na companhia. A prefeitura buscou até a viúva de Braga, mas ela se desfez do acervo do marido.
"Estão atrás do projeto. Naquela época era papel, não tinha computador. Acabou a obra, jogava tudo fora. Depois de 40 anos, acho que não tem mais", disse Camargo.
Segundo o engenheiro, os consultores necessitam de mais informações para ter o diagnóstico completo. "O projeto ajuda. É preciso achar o projeto até para eu poder lembrar."
Ele descarta o risco de a estrutura desabar. "Já tem equipe trabalhando para calçar, segurar o viaduto. Isso está praticamente feito. Depois é macaquear."
Ele se refere ao plano da prefeitura de construir dez estacas de ferro na base de sustentação do viaduto para erguê-lo com macacos hidráulicos em um método chamado de macaqueamento. Ainda não há, porém, um cronograma para as medidas.
O viaduto que cedeu passa sobre os trilhos da linha 9-esmeralda da CPTM. O local é rota de acesso à rodovia Castello Branco e próximo ao shopping e ao parque Villa Lobos, a 500 m da ponte do Jaguaré.
A marginal Pinheiros é a segunda via mais movimentada de São Paulo, atrás apenas da Tietê, e liga a cidade a diferentes rodovias e avenidas. Em apenas uma hora, no pico de tráfego, 13 mil veículos passam pelas oito faixas da marginal, incluindo a pista local. Cinco dessas faixas estão agora interditadas. Em um dia comum, trafegam 450 mil veículos nos dois sentidos da marginal Pinheiros.
As áreas mais atingidas dentro dos bairros são as vias da zona oeste, entre a marginal Pinheiros e o centro. Um esquema especial orienta o trânsito nos eixos das avenidas Faria Lima, Pedroso de Morais, Professor Fonseca Rodrigues e a Doutor Gastão Vidigal. Essas avenidas servem de alternativas à interdição da pista expressa na marginal –na Pinheiros, somente a via local segue liberada para veículos.
A prefeitura também orienta que os motoristas vindos das rodovias Anchieta, Imigrantes e Régis Bittencourt peguem o Rodoanel e a rodovia Castello Branco até alcançar a marginal Tietê. Outras opções para quem sai do litoral são as avenidas do Estado e Salim Farah Maluf.
A Prefeitura de São Paulo é alvo de cobranças há mais de uma década para reformar pontes e viadutos que requerem manutenção preventiva e reparos. A situação se arrasta por pelo menos quatro prefeitos -Gilberto Kassab (PSD), de 2006 a 2012, Fernando Haddad (PT), de 2013 a 2016, João Doria (PSDB), de 2017 a abril de 2018, e Bruno Covas (PSDB)- sem que uma ampla ação efetiva tenha sido realizada.
Segundo o Ministério Público, a maioria das pontes e viadutos da cidade foram erguidos entre as décadas de 1960 e 1970 e, desde lá, não passaram por manutenção adequada nem receberam atenção de prevenção a contento. A falta de atenção rotineira às instalações também acabou por inflar os valores das obras.
Neste ano, a gestão Bruno Covas (PSDB) gastou apenas 5,3% do valor previsto para recuperação e reforço de pontes e viadutos em São Paulo. A administração municipal reservou R$ 44,7 milhões para recuperação e reforço de viadutos e pontes no Orçamento deste ano. No entanto, a menos de um mês e meio do final do ano, gastou até agora apenas R$ 2,4 milhões. Com informações da Folhapress.

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